26 de novembro de 2012

Jeans: conheça a história dessa importante peça que nunca saí de moda

Foi no ano de 1853, nos Estados Unidos, que o mascate alemão de 24 anos, chamado Levi Strauss, observando o trabalho dos mineradores percebeu que suas roupas não resistiam ao trabalho pesado e que precisava de uniformes vigorosos e de alta durabilidade. Com a queda de vendas e o mercado saturado, Strauss teve a idéia de transformar as lonas, utilizadas como cobertura de carroças durante a corrida do ouro na Califórnia, em calças resistentes para o trabalho pesado nas minas.

No início, Levi Strauss confeccionou duas ou três peças bem reforçadas com três bolsos frontais e deu-as aos mineradores. As peças não estragavam com facilidade e o sucesso foi tão grande que a roupa foi adotada também pelos trabalhadores rurais e ferroviários. Nascia o jeans! Depois disso, deu-se início a parceria com seus irmãos e cunhados para fundar a Levi Strauss & Co.

Como o tecido da lona era pouco flexível, Levi Strauss resolveu procurar por um tecido que fosse, ao mesmo tempo, resistente, durável, maleável e confortável de usar. Em sua busca encontrou um tecido fabricado na cidade de Nimes, na França, que era uma espécie de estopa bem trançada com algodão. Esse tecido foi chamado Denim cujo nome era proveniente de Nimes. Aos poucos, outros detalhes foram sendo incorporadas às peças, como os botões metálicos em 1860.

Em 1872, o alfaiate Jacob Davis, judeu nascido na Letônia, fabricante de capas para eqüinos que freqüentemente ouvia os fregueses reclamarem de que os bolsos de seus macacões não resistiam ao peso das pepitas de ouro, propôs uma solução: unir os bolsos com o mesmo tipo de rebite de metal (tachinha de cobre) que usava para prender as correias dos cavalos. Com isso, as calças tornaram-se mais duráveis e com uma resistência maior para os bolsos. Com o sucesso dessa adaptação, Jacob Davis procurou Levi Strauss e, em 1873, os rebites de reforço foram patenteados.

A união de Levi Strauss e Jacob Davis não poderia ser mais bem-sucedida. No final de 1873, eles haviam produzido 1.800 dúzias de calças. No ano seguinte, quase 6.000. O primeiro lote de tecido importado das calças tinha como código o número 501, que nomeou o clássico e mais famoso modelo da empresa. Em 1886, foi adicionada a etiqueta de couro ao cós da calça. E, em 1910, os bolsos traseiros foram inseridos. Nessa época, o jeans Levi Strauss já tinha costuras duplas e os dois arcos costurados nos bolsos de trás, que representavam as montanhas rochosas norte-americanas.


Nasce o "indigo blue"
Após dezoito de produção, em 1890 expirou a patente para a fabricação da calça modelo 501 e os concorrentes entraram com tudo no mercado. Nesse mesmo ano, Levi Strauss decidiu tingir as peças com um corante de uma planta indiana chamada “indigus”, que a princípio dava uma cor verde às peças, mas com a exposição ao sol se tornava azul, cor essa que ficaria conhecida universalmente como “indigo blue”, pela qual o jeans é conhecido até hoje. Com essa estratégia, Strauss transformou a sua criação em uma peça diferenciada e mais atraente para o mercado.

Com a crise econômica de 1929 nos Estados Unidos, o modelo de calça 501 popularizou-se e passou também a ser a calça do trabalhador urbano. Os filmes de sucesso que retratavam os famosos cowboys norte-americanos também contribuíram muito na divulgação do jeans.  Mas foi em maio de 1935, em um anúncio publicado na revista Vogue, que o departamento de publicidade da Levi Strauss fez do jeans a roupa típica de uma cultura e o padrão de uma moda que permanece até os dias de hoje. O anúncio conquistou fregueses e despertou ainda mais a concorrência.

Se a crise de 1929 foi uma dádiva para o jeans, a Segunda Guerra Mundial foi seu passaporte para a notoriedade. Às vésperas da guerra, a população e os soldados norte-americanos usavam uniformes confeccionados com o tecido “denim”. Com isso, a Levi’s lança mais um golpe publicitário: “O jeans não era só um privilégio, mas uma distinção”, que fez do antigo macacão de trabalho um símbolo de ascensão social. Durante a Segunda Guerra Mundial, militares americanos em serviço no exterior usavam calça jeans nos dias de folga, exportando seu encanto como estilo ocidental de democracia.

O jeans entra na moda
A Guerra difundiu a imagem de virilidade que o tecido Denim representava e o jeans passa a ser uma moda que contraria o habitue, pois havia nascido do povo e era usado em todos os continentes, tanto por trabalhadores do campo como da cidade, tanto pelos ricos como pelos pobres e, nesse momento, o jeans dava os primeiros passos para virar uniforme da juventude. Foi na década de 1940 que o nome "jeans" passou a ser usado para designar as calças de brim índigo blue e os cowboys do asfalto montavam suas motos (Harley Davidson) trajando o material. O jeans se espalhou pelo continente europeu e surgiram as primeiras lojas que vendiam excedentes americanos de guerra. Como a oferta de calças não era suficiente para atender à demanda, o jeans passou a ser um dos produtos mais procurado e comercializado no mercado negro europeu. Enquanto isso, nos Estados Unidos, a Levi’s imita a concorrente Lee e acaba com os botões da frente de seus jeans e os substitui por zíper. Além disso, os rebites de cobre são trocados por folheados a cobre.

Durante muito tempo, o jeans foi uma roupa usada exclusivamente para trabalho. Somente nos anos 50, o jeans tornou-se um símbolo de rebeldia como forma de expressão. A imagem rebelde do material era tão forte entre os jovens que o traje passou a ser proibido nas escolas e em lugares como cinemas e restaurantes. Quando o jeans foi adotado pelos rebeldes sem causa, encarnados no cinema por James Dean, Marlon Brando e pelo cantor Elvis Presley, a peça finalmente tornou-se a vestimenta dos jovens americanos e passou a influenciar o mundo todo. Logo depois, modelos como Marylin Monroe usaram o jeans como um apelo sensual e com isso conquistaram as mulheres.

O jeans só chegou a conquistar o restante da população após o desenvolvimento social do seu conceito como roupa despojada e cotidiana, sem perder seu charme e elegância. A calça tradicional foi um dos primeiros modelos a se popularizar, pois acompanhava as linhas do corpo e vestia bem a maioria das pessoas. A produção era feita pelas marcas Lee, Wrangler e Levi's, ganhando fama, principalmente, nos anos 50.

O jeans nas últimas décadas
Na década de 1960, os hippies que pregavam a paz, faziam o amor ao ar livre e as marchas de protesto contra a guerra do Vietnã, adotaram o jeans como peça essencial do visual largado, e mais uma vez ele se tornou parte de uma cultura jovem. Foram os hippies que introduziram a idéia de customização das peças, feita por meios artesanais, que logo entrou em processos industriais. Foi na mesma época que o jeans iniciou sua inserção na indústria européia, que transformou e aprimorou o seu design e o seu acabamento, tornando-se a grande referência na produção do artigo na indústria da moda.

O primeiro estilista a colocar o jeans na passarela foi Calvin Klein, provocando polêmica na década de 1970. O estilista foi bastante criticado pelos conservadores que não podiam imaginar o que o jeans se tornaria ao longo do tempo. A polêmica não parou por aí; a grife lançou uma campanha publicitária ousada que colocava a jovem atriz Brooke Shields trajando uma calça jeans e mais nada. Além disso, Calvin Klein inovou ao fazer as calças mais altas e justas no quadril dando forma ao bumbum e ao corpo sexy das mulheres.

Depois de Calvin Klein, o jeans começou a fazer parte das coleções de moda dos grandes estilistas que perceberam a importância dessa peça simples e de expressão para o mundo fashion. Estilistas americanos como Ralph Lauren, Oscar de la Renta, Geoffrey Beene e o próprio Calvin Klein transformaram a calça jeans em um ícone de status e faturaram bastante com suas peças.

Nos anos 80, os consumidores queriam roupas mais confortáveis e as calças baggy e semibaggy entraram na moda junto com as lavagens desbotadas e detonadas. A tecnologia no tratamento do jeans não parou de evoluir e atualmente o tecido não é mais trabalhado na lavanderia apenas na estonagem. Pode-se também dar a ele vários aspectos, como efeito marmorizado, desbote em negativo, manchados (dirty), destruídos (destroyed), esbranquiçado (delavê), aspecto usado (used) e até imitar tons amadeirados e pele de animal.

Em meados dos anos 1990, o jeans já tinha sido apropriado por estilistas famosos e de grandes marcas mundiais, e eram vendidos a preços exorbitantes para as celebridades do cinema e da música. A Italiana Diesel foi à primeira marca a conseguir levar um jeans desbotado de alta qualidade e com design italiano para os consumidores dos subúrbios americanos. A marca abriu caminho para a boca de sino e a lavagem “bigode” (com marcas de vinco desbotadas que saem da braguilha).

O estilista Ives Saint Laurent afirmou certa vez: “Gostaria de ter inventado o jeans: a mais espetacular, prática, descontraída e casual das peças. É expressivo, modesto, tem sex appeal e simplicidade, tudo o que desejo para as minhas roupas”.

O jeans atravessou o século XX sofrendo inúmeras transformações, resistindo às tendências e modismos, propagando estilos e comportamentos e se tornando o maior fenômeno já visto na história da moda. Levi Strauss morreu em 1902, sem saber o tamanho do legado que deixou. O jeans mudou o costume e o modo de pensar de milhões de pessoas. Pode-se afirmar sem dúvida nenhuma que hoje em dia o jeans é uma peça obrigatória em qualquer guarda roupa feminino ou masculino.

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