26 de novembro de 2012

Doença Holandesa ou Praga Brasileira?

ANA KLEIN
Diretora de Relações com o Mercado ACS Global


Em economia, “doença holandesa” refere-se à relação entre a exportação de recursos naturais e o declínio do setor manufatureiro. A expressão provém dos anos 60, quando a escalada dos preços do gás nos Países Baixos e sua valorização cambial derrubaram as exportações dos demais produtos lá produzidos. E, embora alguns analistas neguem sua existência no Brasil, a orientação econômica de sucessivos governos só fez piorar o cenário no qual nossos produtos manufaturados perdem competitividade internacional. O crescimento do país entre 2002-2008, promovido pela elevação dos preços das commodities exportadas, foi baseado no agronegócio e contribuiu para o agravamento do mal.

Segundo a FIESP, a queda estrutural da participação da indústria na economia ocorreu mais rapidamente no país do que no resto do mundo. Preocupantes são os dados do IBGE: a indústria registrou corte de 327 mil trabalhadores no primeiro trimestre do ano, uma redução de 2,7% no contingente de trabalhadores frente aos três meses anteriores. Embora a indústria, como um todo, represente 21% do PIB do Brasil, o setor responde por 51% das exportações, por 68% da pesquisa e desenvolvimento do setor privado e por 32% dos tributos federais.

A praga brasileira está aí para quem tiver discernimento para avaliar o cenário. Como no Brasil a doença holandesa não é óbvia como nos países exportadores de petróleo, a miopia governamental nega sua existência. Já que o mercado interno cresceu muito devido às políticas distributivas do governo, confundem um aumento de produção em volume, em decorrência de uma bolha de consumo que passou, com investimento em inovação e modernização do parque fabril, que não aconteceu.

Estamos perdendo competitividade ao mesmo tempo em que o resto do mundo está dando um salto com a quarta revolução industrial, marcada pela convergência de tecnologias digitais, físicas e biológicas. Enquanto isso, damos marcha ré, exportando produtos primários e vendo nossa indústria morrer à míngua. 

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