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15/08/2012

Desfiles se apressam e atropelam tecelagens


Matéria publicada no jornal Folha de São Paulo 14 de agosto

Eliane Trindade
Colaboração para Folha de São Paulo


A realização de três semanas de moda em 2012 coloca à prova a capacidade de produção das tecelagens brasileiras. Tudo em nome de um ajuste desejável no calendário de moda, que, para alguns críticos, está sendo feito de forma apressada.

A partir deste ano, a São Paulo Fashion Week e o Fashion Rio passarão a ser realizados em outubro/novembro (para o lançamento do inverno do ano seguinte) e em março/abril (para o lançamento do verão).
Até então, em janeiro ocorria o lançamento de inverno e em junho, o do verão, com prazo de dois meses para os produtos chegarem às lojas ¬-a edição primavera-verão da Première Vision Brasil, feira de lançamento de tecidos, foi mantida em janeiro.

"Nesse primeiro momento, todos os elos da cadeia produtiva da moda vão viver ajustes. Tanto os estilistas para antecipar suas coleções como a indústria, que vai precisar fornecer matéria-prima antes e criar as próprias tendências", afirma Graça Cabral, diretora de planejamento da Luminosidade, empresa que organiza as duas semanas de moda.

A chiadeira é maior entre os fornecedores de tecidos. E não só pelos exíguos 45 dias para entrega de matéria-prima até os desfiles.

"É mais difícil trabalhar com esse calendário. Não vamos poder ir à Europa ver o que está nas vitrines. Vamos fazer uma coleção no escuro, sem tanta informação como antes", diz Renato Bitter, da malharia e tecelagem Savyon.
A consultora de moda Costanza Pascolato, dona da tecelagem Santa Costanza, avalia que o setor vai passar por uma espécie de "vestibular".

"O Brasil será o primeiro a mostrar o próximo inverno, enquanto o hemisfério norte só vai lançar a estação em fevereiro." Ou seja, a indústria brasileira vai ter que copiar menos e criar mais.

Ela vislumbra benefícios a longo prazo. "O novo calendário de desfiles é uma oportunidade para elaboramos uma identidade própria. A indústria inteira vai ter que se aproximar mais da realidade do varejo do próprio país."

BOM RETIRO
No momento, o Bom Retiro, tradicional reduto do comércio varejista, vai ganhando de goleada das badaladas grifes das semanas de moda.

"Nossos maiores clientes são as confecções que seguiram essa nova classe C e fazem uma moda mais sensual, com roupas coladas", diz Bitter, que fornece para marcas que desfilam na SPFW e no Fashion Rio e para confecções do Bom Retiro.

"O Brasil não teve ainda tempo de evoluir sua produção de luxo para uma escala industrial", diz Costanza.

Para a consultora, a sofisticação de estilistas como Reinaldo Lourenço, Gloria Coelho e Alexandre Herchcovitch, por exemplo, ainda é um laboratório. No entanto, Costanza acha injusto colar carimbo de irrelevância nas semanas de moda. "A SPFW é o cartão de visitas da moda brasileira, importantíssimo para fazer frente à invasão deprodutos estrangeiros."

Bitter concorda, em parte. "As Fashion Weeks são onde tudo começa, mas nossos outros clientes compram mais. Eles já trabalham no 'timing' que funciona pra mim. São quem segura a indústria."

Corte e costura no calendário

Como era
• Em janeiro, lançamento da coleção de inverno
• Em junho, lançamento da coleção de verão

>Intervalo de dois meses para os produtos chegarem às lojas do país

Como fica
• Em outubro/novembro, lançamento da coleção de inverno
• Em março/abril, lançamento da coleção de verão

>Intervalo de no mínimo quatro meses para os produtos chegarem às lojas