Um dos principais especialistas em varejo no Brasil, Marcos Gouvêa de Souza, destacou em palestra realizada no final de junho durante a Francal – 44ª Feira Internacional de Moda em Calçados e Acessórios, na capital paulista, que o varejo está cada vez mais globalizado.
Segundo o consultor, a internacionalização atinge principalmente os países emergentes e eleva o nível de competitividade devido ao crescimento de players que passam a disputar seus mercados. "A nova realidade global atinge todos os segmentos, inclusive os de vestuário e calçados e exige das empresas novas estratégias de atuação e investimentos em qualificação".
Outro fato que vem mudando o cenário do varejo é o aumento da participação da classe médio no consumo. No Brasil, por exemplo, era de 50% em 2003, e em 2011, chegou a 70,2%. "A mutação não é só quantitativa, mas também qualitativa. Embora mantenha alguns comportamentos anteriores, a classe média assume novos hábitos e passa a exigir das lojas mais por menos; o que tem impacto até mesmo sobre o formato dos pontos de vendas".

Gouvêa destacou que com mais recursos e mais informado, o consumidor tem apetite voraz e quer comprar mais e melhor. "As informações de que dispõe o ajudam a tomar uma decisão mais sábia. Antes de ir à loja, ele faz pesquisas em sites de comparação de preço e sabe exatamente onde estão as melhores opções de preço, atendimento, qualidade e variedade de produtos. Nas redes sociais, ele expressa sua satisfação ou insatisfação com o tratamento que recebeu ao comprar".
Nesse cenário, muda até mesma a forma de distribuição. Redes de lojas se especializam para atender o consumidor bem informado, que exige serviços eficientes. De outro lado, lojas de departamentos e hipermercados, como Renner, Riachuelo, C&A e Carrefour, 'descobrem' que vestuário e calçados permitem obter rentabilidade maior que a de outros produtos. Dessa forma, passam a dedicar atenção ainda maior ao segmento, intensificando a concorrência. 90% dos produtos que comercializam têm marca própria, o que permite mais competitividade e rentabilidade. "O apetite fica cada vez maior pelos ganhos que a operação permite", pontuou Souza.
A moda do Fast Fashion
Outro exemplo da reorganização do varejo vem do modelo Fast Fashion. As lojas passam a trabalhar com reposição mais frequente e pedidos menores, disponibilizando novidades constantemente ao consumidor. As novas opções motivam, excitam e atraem o interesse, principalmente das mulheres, que precisam delas para entrar nas lojas. "O sistema que consagrou a Zara agora é seguido por redes brasileiras, como a Riachuelo, por exemplo", explicou o consultor.
Para ele, o Fast Fasion veio para ficar, especialmente no varejo massificado, por ampliar a competitividade das empresas. Ciente disso, a Riachuelo já tem 50% dos produtos fabricados em unidades fabris próprias, o que permite produzir com rapidez, em pequenos lotes e constantemente colocar à disposição dos clientes novidades em todas as linhas de produtos.
Para enfrentar as grandes redes e atender com rapidez, sobretudo a classe média, o varejo multiformato e multibandeira amplia presença no mercado. Redes que operam com este conceito ganham mercado em todas as regiões. Paquetá, no sul, e Esposende, no nordeste, são exemplos.
Crescimento do e-commerce
Embora as lojas físicas estejam cada vez mais atrativas e diversificadas, o consumidor faz uso da praticidade e comodidade ao comprar. No Brasil, entre 2006 e 2011, o e-commerce cresceu 328%, muito acima dos Estados Unidos, por exemplo, onde a expansão foi de 85,75% no período. "O comércio virtual representa de 2,5% a 3% do total de vendas do varejo, o que indica que tem muito ainda a crescer. Só em 2012, deve movimentar R$ 1,6 bilhão", destacou Souza.
As lojas especializadas ampliam faturamento a cada ano. A Netshoes, uma das mais conhecidas, arrecadou R$ 500 milhões em 2011 e para este ano projeta receita de R$ 1 bilhão. A Centauro, outra grande do segmento, deve vender R$ 230 milhões no meio virtual em 2012. A Dafiti, por sua vez, projeta faturamento de R$ 500 milhões este ano, ante R$ 300 milhões de 2011. "As empresas monitoram o relacionamento com os consumidores e são cada vez mais dinâmicas em suas operações, inclusive em nichos específicos", enfatizou o consultor.
Marcas próprias
Tanto as lojas de departamento quanto o varejo tradicional apostam em marcas próprias. Pesquisa feita pela Gouvêa de Souza indica que 64% dos consumidores têm comprado produtos com marcas próprias das lojas e 26% têm interesse por eles, resultado da intensa divulgação feita. "A cabeça do consumidor está sendo feita para aceitar a marca própria do varejista como algo excepcional para ele", comentou Souza.
Transformação da loja
A transformação da loja com a globalização não é só visual ou no perfil dos produtos, está presente também na relação com o consumidor. Hoje, cada vez mais, a loja é ponto de compra, mas também de solução, de atualização, de integração, de relacionamento e de serviços. "Mais do que tudo, a loja é ponto de experiência para o consumidor e quem consegue cumprir todos estes papeis ao mesmo tempo obtém a preferência", enfatizou Gouvêa de Souza, que destaca também a influência da revolução digital sobre o varejo. No Brasil e em outros países, a internet e a tecnologia móvel mudam hábitos de vida, renovam conceitos e influenciam as decisões de compra. |